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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Nota de Stephen King Sobre Doutor Sono

Stephen King:
" Meu primeiro livro pela Scribner foi Saco de ossos, de 1998. Como eu estava ansioso para agradar meus novos parceiros, embarquei em um tour para promover esse romance. Em uma das sessões de autógrafo, um cara qualquer me perguntou:
— Ei, você faz ideia do que aconteceu àquele garoto de O iluminado?

Essa era uma pergunta que eu já tinha me feito muitas vezes sobre esse velho livro — assim como outra: o que teria acontecido com o pai perturbado de Danny se ele tivesse descoberto o Alcoólatras Anônimos, em vez de tentar se virar com aquilo que a turma do AA chama “sobriedade de alta tensão”?

Assim como com Sob a redoma e Novembro de 63, essa era uma ideia que nunca chegou a sair da minha cabeça. De vez em quando — ao tomar banho, assistir a um programa de TV, ou fazer uma longa viagem de carro — eu me via calculando a idade de Danny Torrance e imaginando onde ele estaria. Sem falar em sua mãe, mais um ser humano basicamente bom, que sobrevivera ao rastro de destruição de Jack Torrance. Wendy e Danny eram, no linguajar atual, codependentes, pessoas presas a um membro viciado da família por laços de amor e responsabilidade. Em algum momento de 2009, um de meus amigos, um alcoólatra em recuperação, me disse uma piadinha sucinta: “Quando um codependente está se afogando, a vida de outra pessoa passa diante de seus olhos.” Isso me pareceu verdade demais para ter graça, e acho que foi neste ponto que Doutor Sono se tornou inevitável. Eu precisava saber.

Será que escrevi o livro com insegurança? Podem acreditar que sim. O iluminado é um desses romances que as pessoas sempre mencionam (com Salem, O cemitério e It — A Coisa) quando discutem sobre qual de meus livros realmente as deixou apavoradas. Além disso, é claro, há o filme de Stanley Kubrick, que muita gente parece recordar — por motivos que nunca cheguei a compreender — como um dos filmes mais aterrorizantes que já viram. (Se você viu o filme, mas não leu o livro, repare só que Doutor Sono segue este último, que é, na minha opinião, a verdadeira história da família Torrance.)

Gosto de pensar que ainda sou bom naquilo que faço, mas nada pode se igualar à memória de um bom susto, e quero dizer nada mesmo, especialmente se for dado em alguém jovem e impressionável. Já houve pelo menos uma continuação brilhante de Psicose de Alfred Hitchcock (Psicose IV, de Mick Garris, com Anthony Perkins reprisando seu papel de Norman Bates), mas as pessoas que assistiram — ou qualquer uma das outras — apenas balançam a cabeça e dizem não, não, não é tão bom. Elas se lembram da primeira vez que viram Janet Leigh, e não há remakeou continuação que possam superar aquele momento em que alguém puxa a cortina e a faca começa seu trabalho.

E as pessoas mudam. O homem que escreveu Doutor Sono é muito diferente do alcoólatra bem-intencionado que escreveu O iluminado, mas ambos continuam interessados na mesma coisa: contar uma história fantástica. Gostei de encontrar Danny Torrance de novo e seguir suas aventuras. Espero que você também. Se este for o caso, leitor fiel, estamos bem. "

Bangor, Maine
 
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