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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

TEMPO RUIM

I Parte


Maic estava suando aos baldes debaixo do "monte de merda" quando Nildon chegou. Era assim que Maic chamava os carros velhos que consertava. Bateram um curto papo, Maic tinha muito trabalho pela frente e Nildon tinhas tarefas a cumprir.

- Até mais, amigo – disse Nildon, montou e saiu pedalando sua bicicleta cargueira, sem saber que nunca mais veria o seu amigo Maic. - Até mais.

- Até – disse Maic, acenando um tchau (um adeus involuntário).

Maic voltou ao trabalho no "monte de merda". Ele sempre respondia a quem perguntava que trabalhava na empresa “BigFossa”, uma empresa que tira merda das fossas quando estavam cheias, comparando ao serviço de só mexer com carros velhos.

A oficina em que Maic trabalhava ficava numa avenida bem movimentado. Era uma rua chamada 13 de outubro, na Cidade de Castanhola – Pará. Ele nunca soube o porquê da droga da rua se chamar assim (devia ser em homenagem a alguma besteira do país, pensava) e nem se importava com isso. Mas o local onde Maic fica, onde mexe nas "merdas do dia", era na calçada, em frente à oficina do Marllon, de onde ele podia ver muito bem quem transitava, isso era uma vantagem as vezes.

O caminhão em que estava mexendo (a merda a ser sugada para dentro do bigfossa) tinha um problema grave na parte hidráulica, e Maic tinha que ficar em baixo para poder consertar. Deitava de costa em papelões imundos, pois seu chefe (o grande filho da puta, era assim que Maic o chamava mentalmente quando pronunciava seu nome) nunca podia comprar nada para melhorar a vida de seu único empregado. Óleo pingava de vez em quando, e - vira e mexe - atingia seu rosto e escorria pro seus olhos. Óleo no olho, ele quase riu disso, mas estava muito cansado. O sol a pino não dava trégua. Parou um pouco para tomar um copo de água.

- Delícia – disse quando o copo de água desceu goela abaixo.

Não havia tempo a perder, volto logo que pôde. Se custasse um minuto sequer a mais, quem pagaria por sua morosidade era ele mesmo. – Quem mais seria, nessa porra?, pensou ele . Deitou-se e mandou ver no serviço.

Uma gata muito gostosa passou na rua. Do tipo de mulher que chama atenção de todos onde passa (a moça era uma estudante chamada Geane Santiago, depois conto como sei disso – me cobrem, ok?). Maic pôde sentir o cheiro lascivo da gata. Hummmmm, pensou ele em voz alta. Ah se eu tivesse uma chance, ah se eu tivesse, pensou, pois coragem eu tenho; só me falta a oportunidade.

Certa vez teve a oportunidade. Certa vez a oportunidade esperou por ele por alguns minutos, mas o que ele fez, ham? Ele fugiu. Verdade. Maic era um cara guerreiro, muito trabalhador e um grande amigo de verdade. Mas era muito tímido e isso o atrapalhava, pois lhe causa medo em horas que não deveriam. Houve o erro. Houve a oportunidade. Houve a fuga, não podemos deixar de comentar isso, também. Mas o mais importante de tudo: houve o aprendizado.

Uma gota de óleo pingou em seu olho esquerdo e escorreu para o direito.

- Caralhooo!!! - esbravejou e tentou levantar. Acabou atingindo sua testa no caminhão. - Olha que bacana: cego e com um baita galo na cabeça. Era só o que me faltava mesmo. Porraaa!!!

Tentou ver se a gostosa tinha visto o estardalhaço que tinha feito. Talvez tivesse mesmo visto, talvez tivesse rido, mas já tinha ido embora. Graças a Deus, pensou Maic. Teria morrido de vergonha.

Lavou os olhos como pôde, não via nada com óleo por todo o rosto. Terminado a limpeza facial (fingiu estar num salão de beleza sendo hidrato com óleos próprios para isso), retornou a remoção das "fezes".

Deitou-se no papelão que, além de imundo, agora estava todo sujo de óleo. E prometeu a si mesmo mais concentração para terminar aquele tarefa.

Aperta, aperta. Solta, solta. Tira, limpa e põe de volta. O suor escorreu pelo seu rosto cansado. Era um serviço para poucos, e talvez só para ele mesmo.

Um homem alto se aproximou e parou perto de Maic. Ele pode ver a sombra do cara. Ele havia prometido mais concentração e nada o faria parar, já era quase meio dia, sua barriga começou a roncar. Se tivesse olhado, teria visto o pezão do cabra e que ele calçava sandálias havaianas muito comuns. Tinha a pele negra e a canela bastante cabeluda (perna de caranguejo, diria Nildon: fina, suja e cabeluda).

- Olá – disse o homem de sandálias havaianas. Maic achou a voz familiar. - Poderia me dar um informação, por gentileza, meu amigo?

O homem tinha sido muito gentil para Maic o ignorar, e responde:
- Claro que sim, pode falar, - disse sem olhar e mexendo na “bosta do dia”.

- Como faço para chegar a avenida Barão do Rio Branco? - perguntou o homem.

- Sobe a ladeira e pega a esquerda, a primeira rua com que topar vai ser ela – Disse Maic, fazendo uma cara feia enquanto torcia uma parafuso teimoso.

(sai, seu parafuso teimoso de merda.)

O homem ficou em silêncio por um instante, parecia estar olhando o que lhe foi indicado. Quando entendeu as diretrizes, falou:
- Muito obrigado, meu amigo. Desculpe ter te incomodado.

- Não foi nada, camarada.

(sai, seu parafuso teimoso de merda. Sai.)

Maic o ajudou, mas não estava muito a fim de bater papo com o estranho, não. Queria mesmo era terminar o serviço e ir embora daquele lugar. Sabe, por pior que fosse, ainda teria que voltar a tarde (risos). E isso era muito escroto, mas Maic estava acostumado com a rotina.

- Vou deixar um pequeno agrado como forma de agradecimento aqui no chão perto de você – disse o homem. Abaixou e pôs uma nota no chão.

- Não precisa, não precisa – disse Maic. - Eu não fiz nada que valesse ser pago.

Maic virou o rosto para olhar. A nota estava ali no chão, não era um valor muito alto, mas o homem tinha sumido. Tinha ido embora.

Maic achou que tinha tido uma alucinação. Pegou tanto sol desde que chegou que pode muito bem ter pego uma insolação. Sabe como que é né? Homens no sol do deserto vêm coisa onde não tem. O sol, a sede, a fome, e tudo o mais, fazem o cérebro humano ver coisas. Ele achou que estivesse sofrendo do mesmo problema. Mas e a nota no chão?

Como explicar a nota?

O vento pode muito bem ter trazido. Claro que sim. Era um local bastante ventilado e ficava num ponto estratégico para o vento trazer porcarias. Tudo parava ali: sacos e sacolas sempre pairavam e aterrissavam na oficina.

Maic pegou a nota, saiu debaixo da “bosta do dia” e a olhou. A nota tinha alguma cosa escrita. A nota era um tipo de bilhete e estava endereçada a ele.

Nela tava escrito a seguinte mensagem:


Olá, Miac

Quem escreve aqui é você mesmo, o Maic.

Bom, eu do passado, vim aqui para te quebrar na porrada. E assim te fazer um cara melhor. Mas ao chegar aqui, vi que isso não é possível. Então vou te dar umas dicas boas para nós sermos mais felizes na porra dessa nossa vida de merda.

01 - Vá embora da casa da vovó, nossa mãe. Arranje uma casa só para nós, seremos livres.

02 – Estude o máximo que puder, leia muitos livros, merecemos um emprego melhor, uma vida melhor.

03 – Namore, porra, pare de ser fresco, as mulheres não mordem e são a melhor coisa que você já provou. Faça muito, muito, sexo e teremos um lindo filho.

04 – Saiba dizer não para todos. Diga não principalmente para a família: mamãe, mana, as tias, as primas, todos esses porras que só querem nos sugar. E depois ficam falando mau de nós.

Acho que tenho muitas outra dicas, mas o espaço no papel é pouco. E essa são as principais dicas que tenho para nós.

Siga-as e seremos muito felizes.

Valeu, doido. Fui.


Depois que Maic leu tudo aquilo, por algum motivo, ele achou que foi a forma como foi escrita, os jargões usados, tomou como verdade e seguiu as dicas o máximo que pôde.

Era difícil para ele mudar, sempre foi um cara passivo. Aceitava tudo que a vida lhe tinha lhe dado, sendo bom, ou sendo ruim, sem reclamar. E tanta coisa ruim lhe acontecia. Tanta gente lhe criticava, mesmo dando o melhor de si para agradá-los. Mas o mundo não é perfeito. Miac não era perfeito. Ainda erraria muito na vida, isso era certo.

Mas uma visita do futuro poderia mudar alguma coisa? Ele não sabia. Não tinha como saber. Ou tinha? Seguir as dicas seria uma forma de testar isso. Não é mesmo? Seria, sim. E quem sabe, com muita sorte, mudar sua vida de merda para uma coisa melhor.

Ele as seguiu fielmente. E, como diziam as dicas, uma grande mudança foi sentida. Tudo mudou. O mundo de Maic mudou para sempre, para melhor, ou... talvez... para pior, em alguns sentidos.




NO DIAS ATUAIS.

Quando Maic voltou do passado, muitas memórias novas eclodiram de uma só vez. Foi como levar um baita choque na cabeça. Ele caiu e perdeu os sentidos.




 
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